domingo, 23 de novembro de 2008

"Fumacinha pra lá, santinho pra cá"...

15/09/2008

23:16

Pareço um cão de caça!Minhas narinas sentem um forte cheiro invadindo meu quarto.Eu acordei com esse cheiro de fumaça. Cheiro forte , parece que tem alguém queimando gravetos , queimando mato ainda verde!
"Fumacinha pra lá,
santinho pra cá,
fumacinha pra lá santinho pra cá"
Estou mesmo enlouquecendo!Lembrar disso agora!Como?E porque?
Recordo do meu pai fumar e a fumaça me incomodar muito, ai ele me ensinava a abanar com as mãos e dizer :fumacinha pra lá, santinho pra cá...E funcionava!Ele era um mágico!A fumaça ia pra longe de minhas narinas e eu achava muito mágico essa simpatia!Ele podou o abacateiro e fez um túnel de galhos e pôs fogo...A fumaça, o cheiro do mao verde queimando. Tudo me impressionou muito. Fato que sei lá se aconteceu, pois da família sou a única a me recordar disso. Só eu!Será mesmo que vivi isso?Como saber?Será que imagino essa bizarra vivência?Bom , o fato é que essa é uma das cenas que ficaram na caverna da memória, e eu com uma tocha em mãos vislumbro como um arqueólogo que encontra uns desenhos de civilizações extintas...Infância extinta, pintura se apagando em teto de caverna escura.Num dia raro que ele ficou em casa e nem me enxergava, desafia os três últimos rebentos, quem for mais valente e atravessar o túnel ganha uma moeda!Eu fui !Mas a moeda foi pro menino, que foi também, acho que primeiro, sei lá que critério usou pra premiar o vencedor...Que raiva!e eu?e eu?
Choro no cantinho debaixo do limoeiro, olhando aquele lindo moreno, sem camisa, que me despreza, me ignora, que me chama de magrela pega os outros dois no colo. Eu quero colo!Eu o achava tão lindo!Mesmo já careca, pançudo, e ficava dali mesmo admirando-o, observando-o cortar o abacateiro.Ah! não tem problema não me dar colo, o que importa mesmo é que ele está qui no quintal!Hoje ele tá aqui!Meu peito vai estourar, de emoção.Fico tanto aqui, brinco tanto aqui debaixo do limoeiro, com as formigas , o abacateiro, taturanas, caramujos, larvas verdes no tronco do limoeirocastelo,,,Hoje é diferente, estou aqui, mas posso vê-lo!Ai, ai!Lindo!
A flor do limoeiro sem um pétala é Princesa, furo com alfinete de costura ,o brotinho de limão, feto abortado por magricela "bisca" e faço seus olhos e boca...O Príncipe é a flor "depetalada"...
Eles se amam nas minhas mãos, aqui no quintal. Eu crio um romântico casal que vive aventuras incríveis e vai de bumerangue até a Austrália!Ah nem... No limoeiro "ele" é só meu, não tenho que dividí-lo com ninguém!Gente é mesmo, meu pai tinha um bumergangue maravilhoso e ele me levava lá no campinho onde hoje é o edifício Vovó mariazinha e mandá-lo ao vento e vê-lo voltar.
Minha mãe não gostava muito de meu pai sair pra passear comigo e minha irmã gêmea, discutiam.
Eu me sentia confusa. Eu sou motivo de briga? Tinha uma flor que eu olhava e via um aborígene e minha mãe xingava toda vez que me via com ela na mão."Este leite que ela solta é veneno!Não coloca a mãono olho senão fica cega!"Que susto!Ela grita e me faz tremer.Meu coração saltando e parecendo um tambor.Que raiva!Me deixa brincar!Me deixa aqui nesta 4a dimensão onde vivo aventuras com o Mickey e o Squálido.Ah nem, minha mãe é pé no chão demais, meu pai é "cabeça de vento"!
Eu amo os 2, mas essa ambiguidade me deixa sem referências...O Masculino quer ler,gastar o $ com livros, enciclopédias, a Divina Comedia de Dante, O Tesouro da juventude , Júlio Verne, gibis...Artesão na ourivesaria, com o maçarico nas mãos funde ouro,cobre,latão e dá vida à lindas jóias...que ele seduz as amantes nos botecos, nas pescarias , nas bebedeiras e esquece que tem prole que essa prole tem fome...O feminino quer calar o choro da prole,pagar contas,remédios,e coisas que a vida prática cobra, EXIGE!Ele adora cozinhar.Eu amo quando ele faz maionese e me explica que o furo da lata de azeite tem que ser bem fininho(faz com um prego),num prato de louça coloca uma gema cozida e uma gema crua e amassa com um garfo, e logo depois fazendo um movimento circular no sentido horário vai acrescentando o azeite, depois suco de limão que eu ja tinha "amaciado"assim: sentada no chão da cozinha de pernas abertas mandava o limão na parede em frente e esperava ele voltar com o impacto para minhas mãos, assim na hora de espremer ficava mais fácil.Ummmm!Posso sentir o sabor!Inesquecível.
Ele era tão charmoso, cozinhava bem e os vizinhos sempre diziam: "A maionese do Juvenal é muito boa" "Ele faz à mão!Não faz no liquidificador!"
Eu quase explodia de orgulho!
Meu pai é bom em tudo que faz!bom ourives, bom cozinheiro!
Mas estranho o olho de minha mãe transmite mágoa, raiva, dor.Ela lava roupas na bacia lá fora.A comida dela é boa, mas não tem poesia, tem pedra de feijão e algumas vezes casquinha de arroz, casca de alho, cabelo...
Ela parece odiar esta vida, vou sair daqui!
Vou lá pro limoeiro, meus irmãos estam matando umas lagartas que deram no tronco dele, eles queimam todas elas.Que horror!São sádicos!São malvados.
Tenho pena delas, se contorcem e caem no chão e morrem lentamente.
Eu tremo...Eu tremo muito!
Cheiro de fumaça, cheiro de graveto queimando, cheiro de infância disante."

2 comentários:

Índigo disse...

Nossa, Cláudia! Estou com lágrimas nos olhos! Muito lindo o que você andou escrevendo! Estou até me sentindo importantíssima de quando você me liga perguntando como acessar o blog (risos)

Parece que às vezes você engata... vê se não perde esse ritmo de escrita! Pelo jeito o dom da família é inegável! Depois quero ver mais do que você andou escrevendo, se puder...

Um beijo imenso! Que saudades!

Cláudia Bernardes disse...

stelinha Vc é muito importante sim pois abriu meu blog lembra? Hoje faz 1 ano!!Eu fico inspirada quando entro no blog, parece um portal...Bjs moça